2 de abril de 2021
A conciliação entre a vida familiar e profissional é essencial no contexto atual, com uma crise sanitária impactando a vida privada e profissional das pessoas. Torna-se cada vez mais necessário que as equipes das empresas alcancem um equilíbrio que lhes permita otimizar o desempenho e desfrutar do tempo livre sem culpa, reconhecendo os benefícios que essa desconexão oferece para as tarefas diárias.
Por Jessica Mendoza, Team Management na Xtendo Global
Recentemente, os modelos de trabalho em equipe mudaram radicalmente. Anteriormente, as empresas empregavam majoritariamente funcionários em tempo integral, com tudo o que isso implicava: trabalhar um número fixo de horas, seguir rotinas em um ambiente controlado e deixar qualquer momento de lazer ou distração fora do horário de trabalho.
Embora houvesse momentos de pausas ativas e interação social durante a jornada de trabalho, existia uma distinção física entre os espaços profissional e pessoal, já que as atividades pessoais normalmente aconteciam em um local diferente do ambiente de trabalho.
Com o modelo de home office, o espaço físico passou a ser o mesmo tanto para a realização das tarefas profissionais quanto para desfrutar de momentos pessoais. Além disso, sem o controle de horários de entrada e saída, torna-se difícil estabelecer limites e traçar uma linha clara entre trabalho e vida pessoal.
Além disso, os trabalhadores remotos costumam enxergar isso como uma oportunidade de adiantar tarefas, mesmo que isso signifique ficar acordado até tarde, o que não apenas desequilibra a relação entre trabalho e vida pessoal, como também interfere nos ritmos circadianos e em hábitos saudáveis de sono e higiene.
Outra consequência do trabalho remoto é a perda do contato direto com os colegas. Ter pessoas com quem trocar ideias e encontrar soluções conjuntas é uma experiência que não pode ser reproduzida da mesma forma em ambientes virtuais, já que as videochamadas — a ferramenta utilizada para esse fim — embora permitam certos aspectos da comunicação, deixam de lado a linguagem corporal, que é fundamental.
É possível adicionar contexto observando mudanças no tom de voz e nas expressões faciais, mas sem dúvida, estar em ambientes e circunstâncias completamente diferentes pode dificultar a compreensão total — ou profunda — da situação dos colegas e a oferta do apoio ou assistência adequados. Sem mencionar que, para muitas pessoas, essa prática pode representar uma carga emocional adicional ou estresse, sendo inclusive considerada uma invasão de privacidade.
Por esse motivo, as empresas devem estar atentas ao bem-estar de seus colaboradores e avaliar como se comunicar de forma eficaz para alcançar seus objetivos.
Como incorporar um equilíbrio adequado entre vida profissional e pessoal?
A responsabilidade por manter o equilíbrio está dos dois lados. Por um lado, o colaborador deve estar ciente das tarefas e expectativas que a empresa possui para organizar sua agenda de acordo, estimando o tempo necessário para cumpri-las e distribuindo espaços proporcionais entre trabalho e vida social.
Por outro lado, o colaborador deve ser capaz de evitar a sobrecarga de atividades, sejam reuniões ou tarefas específicas, e estabelecer limites saudáveis. No entanto, cabe à empresa desenvolver atividades que permitam aos colaboradores desempenhar suas funções de forma eficaz no âmbito profissional e também relaxar de maneira equilibrada.
Compete às organizações fazer um esforço para facilitar a transição entre o tempo de trabalho e o tempo de lazer dentro de limites saudáveis, pensando em programas e atividades com esse propósito.
Seja por excesso de tarefas ou por falta de instruções claras, está comprovado que o desequilíbrio leva à perda de motivação e produtividade. Para prevenir e reverter essa situação, algumas empresas adotaram programas de bem-estar no ambiente de trabalho.
Embora esses programas ainda sejam minoria — pois exigem esforço e recursos para sua implementação — espera-se que esse número aumente, acompanhando a conscientização e o reconhecimento da importância e dos benefícios que podem ser obtidos simplesmente ao considerar as necessidades e demandas de seus colaboradores.
Uma mudança que veio para ficar
Uma empresa que compreende e trabalha as necessidades de seus colaboradores cria um bom ambiente de trabalho dentro da organização. Além disso, gera impacto emocional e senso de pertencimento nos funcionários, enquanto uma empresa que não cria estratégias para oferecer bem-estar provavelmente terá pessoas que permanecem por necessidade e não por paixão pelo que fazem, levando a alta rotatividade, trabalho desqualificado, desmotivação e baixa produtividade.
A maioria das empresas não estava preparada para migrar suas equipes para o trabalho remoto, por isso programas de retenção, fidelização e acolhimento — que podem ser benéficos para a saúde, desempenho, motivação e identificação com a empresa, além de aumentar o sentimento de reconhecimento — tornaram-se elementos-chave a serem incorporados, independentemente do orçamento disponível.
Hoje, o bem-estar significa algo diferente do que significava há duas décadas, ou mesmo menos. A pandemia despertou nas pessoas a necessidade de conviver com a família, valorizar momentos de lazer e encontrar prazer em fontes diferentes das habituais, priorizando inclusive experiências em vez de recompensas monetárias.
Essa mudança é algo que as empresas não podem ignorar se quiserem contribuir para o equilíbrio entre vida profissional e pessoal de seus colaboradores e, consequentemente, desfrutar dos benefícios mencionados anteriormente.
Embora exista uma luz no fim do túnel em relação à pandemia e seus efeitos, como o retorno aos escritórios e aos modelos híbridos em alguns lugares mais do que em outros, trata-se sem dúvida de um evento histórico que marcou um antes e um depois.
Três pilares para alcançar o equilíbrio desejado
As necessidades tanto das empresas quanto dos indivíduos mudaram e continuarão mudando. Para se adaptar com sucesso, sabendo que o tempo é um recurso limitado, é essencial encontrar o equilíbrio adequado entre o tempo dedicado às necessidades pessoais e às tarefas profissionais.
Enquanto o mundo avança em ritmos diferentes rumo ao chamado “novo normal”, há três pilares que todas as partes envolvidas devem considerar para alcançar o equilíbrio desejado entre vida pessoal e profissional, sem negligenciar nenhum aspecto:
- Estabelecer limites saudáveis.
- Dedicar tempo de qualidade à vida pessoal.
- Lembrar que produtividade não é igual ao tempo gasto em uma tarefa.
A chave, além dos três pilares mencionados, é pensar no médio e longo prazo, pois esse equilíbrio desejado é um estado dinâmico, uma percepção construída ao longo de múltos dias de trabalho. Portanto, as estratégias implementadas por empresas e colaboradores devem, acima de tudo, ser sustentáveis ao longo do tempo.
A mensagem é clara: a vida profissional nunca mais será a mesma, e insistir em metodologias do paradigma anterior, que se tornaram completamente obsoletas e ultrapassadas para o contexto atual, não beneficiará nenhuma das partes. Cabe a cada organização e colaborador abrir os olhos e agir de acordo, ou olhar para o outro lado e contribuir para sua própria deterioração.